Enquanto profissional da
educação também achava que copiar da lousa, ficar sentado e não poder falar com
os colegas, durante a explicação do professor,fossem situações dolorosas, cruéis
e sem propósito. São muitas as mães que procuram a Coordenação Pedagógica para
reclamar de tais atos de tirania e crueldade contra seus filhos.
Mas, o tempo me fez ver esta
situação de outra forma. Percebi que a escola se tornou o único lugar seguro
para exercermos nosso ato de descontentamento. E o único lugar que ainda se
pode reclamar da dor que nossos filhos são obrigados a sentir e suportar, em
tão pouca idade. As outras dores, que acontecem fora da escola, não estão mais sendo
passíveis de reclamação.
Em certa formação, sobre
alimentação saudável, ouvi da palestrante que os péssimos hábitos alimentares
dos alunos são aprendidos na escola. Na minha opinião, em particular, ocorre
justamente o contrário. Os poucos bons hábitos existentes, são aprendidos na
escola. Afinal de contas, enquanto a cidade trabalha, alguém precisa ensinar
alguma coisa, já que a atual dinâmica de sobrevivência não tem permitido também
acompanhar a vida escolar e formação dos filhos.
A sociedade ainda não
entendeu o que a escola tem feito, diariamente, por crianças e jovens, filhos
de homens e mulheres trabalhadores. Tem contribuído pela formação e
principalmente pela existência. Digo existência porque todos os dias, crianças
e jovens, são abandonados pela sociedade que trabalha. E é a escola quem olha
pra todos eles e diz “você existe”. Observa tudo e percebe se chegam, se faltam, se estudam, se estão
vestidos adequadamente, se trouxeram o material necessário, se guardaram seus
equipamentos eletrônicos ( inseparáveis), se a relação com o outro tem sido
respeitosa, se abrem o caderno, se fazem a lição de casa, se entregam os
trabalhos, se realizam as pesquisas, se entendem, se aprendem, se sonham e se
possuem projetos para o futuro...
É na escola que podemos errar
e tentar acertos. E mesmo que seja um local que provoca “dor” também tem
provocado muitas alegrias. É um espaço de tantas outras vivencias e de tantas outras
aprendizagens sobre sentimentos e sensações.
Ao refletirmos sobre o fato
de avançarmos tanto em relação ao direito de estar na escola sem termos
alcançado o seu verdadeiro propósito, aprender.
Podemos questionar o mesmo
do trabalho. Como é possível trabalhar e alcançar tão pouco o propósito por tal
esforço diário?
Sabemos que o propósito de
estudar é aprender. E qual seria mesmo o propósito do trabalho ???
Responder esta questão
talvez nos ajude a compreender o motivo pelo qual os alunos estudam, e não
aprendem.
Parece fácil culpar as
escolas e seus profissionais pela pouca aprendizagem, como se este processo
dependesse apenas de dois atores e de um único cenário. Na verdade, é um jogo
de futebol que precisa também de torcedores. Onde a regra não seja mais esconder
a bola. Como a sociedade espera gols?
O gol só tem acontecido
quando existe a trapaça de colocar em jogo uma segunda bola. Esta representa por
todos os esforços que a escola comumente faz assumindo atribuições e tarefas
que deveriam ser da família e da sociedade A regra precisa mudar para que a
bola permaneça em campo e seus jogadores consigam balançar as redes da
aprendizagem.
Nossos alunos não aprendem
porque o aprender é propósito e interesse só da escola quando deveria ser de
todos.
Se o trabalho impede tal
atuação e as escolas permanecem sozinhas nesta jogada a melhor forma de torcer
é não assediar moralmente os esforços de quem faz um pouco, todos os dias, pela
formação de crianças e jovens.
Valorizar a escola e seus
profissionais é o primeiro passo para que a aprendizagem aconteça. Valorizar é colocar
todas as bolas no campo e deixar o gol por nossa conta.
A curiosidade não está no
fato do índice de desenvolvimento humano não apresentar dados positivos sobre a
aprendizagem dos estudantes e sim no fato da sociedade continuar esperando por
bons resultados quando tem feito muito pouco para que isto realmente aconteça.
O nosso país é realmente
muito engraçado. Desde quando é preciso estudar e aprender pra ser país do
futebol ???
Está na hora da sociedade
perguntar para o Brasil o que ele realmente quer ser, quando crescer!