Desde o momento da triste notícia
do que aconteceu com a Bruna, na praia de Boa Viagem quando foi atacada por um
tubarão e morreu logo depois, a impressão que tive foi de que a mídia já agia
mostrando as placas de sinalização e depoimentos a favor da vítima, que não era
nem a Bruna e nem o tubarão.
Na internet ocorreu praticamente
a mesma coisa, não faltaram críticas a jovem de 18 anos por sua “desobediência”
e ao tio, por sua suposta “ganancia” ao dizer que iria processar o estado.
Sou pernambucana e moro em São
Paulo há mais 13 anos, e não estou aqui apenas levantando uma bandeira branca
estou pedindo também um minuto de silêncio.
Minha defesa é a favor da vida
que se foi, uma jovem de 18 anos que simplesmente queria tomar banho de mar.
Quem sai de São Paulo e se depara
com aquele mar lindo do Nordeste, águas quentes e céu azul fica realmente
deslumbrado. Vocês já pararam para pensar que este pode ter sido o único “NÃO”
que a Bruna pode ter dado em toda a sua vida? Alguém sabe a sua história, a sua
forma de viver, seus sonhos e a felicidade imensa que deve ter sentido entrar
no mar naquele dia?
A Bruna não pode ser lembrada por
sua imprudência e sim por seu encantamento diante da beleza que é a vida. É
disto que ninguém lembra, fala ou recorda, do quanto tiram das pessoas as
suas riquezas (a natureza, os rios, o
mar ...). Os que praticam tais crimes continuam vivos, impunes e recebem poucas
críticas.
Talvez ninguém entenda o fato de
tamanha rebeldia ao ponto da jovem ignorar completamente todas as placas de
sinalização, todas as falas e orientações. Mas, em qual país a Bruna morava?
Será que morava no País das maravilhas, onde em todos os lugares têm flores,
onde as leis são cumpridas e ninguém passa o sinal vermelho ?
Não ! A Bruna morava no Brasil
das desigualdades e das injustiças numa terra onde ninguém parece se preocupar
com ninguém. E, de repente, chega em Recife para visitar sua avó e em um lugar
maravilhoso simplesmente querem lhe impedir de entrar no mar. É claro que ela
não entendeu absolutamente nada. Talvez imaginou a mesma coisa que eu quando
estive, certa vez, na Praia do Iporanga
(Guarujá/SP) quando tinha “uma placa” ao lado de uma linda cachoeira dizendo “Seja
breve “ , enquanto pessoas simplesmente moravam neste local e faziam desta
reserva (nossa enquanto patrimônio ambiental)
o quintal de suas casas, não sendo nada breves.
O que eu quero dizer é que a
Bruna talvez se tornou uma moça que aprendeu com a sociedade a não acreditar
nas “boas intenções” das pessoas e preferiu acreditar em alguma coisa. Preferiu
acreditar nos seus próprios sonhos e desejos.
Talvez ela tenha errado e seu
erro custou a sua própria vida. E só !
Mas, ela não errou porque foi
imprudente, desobediente ou por ter acreditado nos seus sonhos e desejos. A
Bruna errou quando deixou de acreditar nas pessoas. E é exatamente isto o que
estamos fazendo hoje , estamos desacreditando nas intenções da Bruna e nos
sentimentos de um tio e de toda uma família. Erramos como ela e ainda estamos
aqui vivinhos. Vai ver que a morte não seja castigo e viver seja o fim para
aqueles que só podem ir embora depois de terem aprendido a primeira lição da
vida : VIVER.
A Bruna morreu porque VIVEU
intensamente a sua vida...foi só isso que ela fez. E viver não é imprudência,
desobediência e nem crime.
Fala-se tanto da imprudência e
nada da vida que perdemos. Sim, perdemos !
A Bruna perdeu a vida, não sei exatamente
o que isto significa, já que da morte nada entendo.
(Nós) Perdemos a nossa humanidade
e sensibilidade diante de fatos como este.
A única coisa que a sociedade
está fazendo é discutir quem vai pagar a conta depois de termos bebido na mesma
taça de amargura e de dor.
É exatamente isto o que a dor
faz, silencia nossos sentidos para que possamos encontrar conforto na
preocupação se vamos ter que pagar alguma coisa ou se a dor vai sair de graça
mesmo.
O “povo” de São Paulo nunca
defendeu tanto nordestino e se uniu em prol do estado de Pernambuco. Será em
defesa dos impostos porque sabem muito bem o quanto custam “coisas” e não fazem
ideia do quando realmente vai acabar custando uma vida ?
Que leitura EU posso fazer deste
cenário e desta tão grande união em defesa de tão pouco, enquanto a vida de um
ser humano é tirada de todos nós ?
SOFRO!!! E é somente isto que
devo fazer com a minha dor...SOFRER ! Deixarei que a justiça faça sua própria
defesa. Limitarei a ser HUMANA ,em momentos como este ,dizendo apenas a família
da Bruna que sinto muito por tudo isso e sofro junto com ela. Hoje me basta
apenas este papel, o papel de simplesmente ser o que somos, um Ser Humano. Peço apenas um minuto de silêncio
em respeito a vida que se foi para que ela possa ir em paz.
Sociedade : UM MINUTO DE SILENCIO
!
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