Políticas
Públicas e a Economia do país: Ataques de tubarões.
Como todos puderam
acompanhar a última notícia sobre ataque de tubarão (de verdade) no país já deu
pra entender que o início e fim desta história irá girar em torno de questões
econômicas, quando poderia ser uma situação-problema para definição de
Políticas Públicas para a cidade, para o estado e para o país, já que estamos
abrindo as portas, ou o curral, para o mundo globalizado e para o esporte
mundial ( copa do mundo em 2014).
A preocupação do estado, da
mídia, da família e da sociedade é com a questão econômica (imposto,
indenização, investimento... ) decisões e riscos.
O estado de Pernambuco
assumiu o risco de optar pelo turismo descompromissado quando acreditou realmente
não ter nenhuma responsabilidade pela morte de pessoas “desavisadas”, “teimosas”
ou “imprudentes”.
Analisando o fato a partir
de uma perspectiva política poderíamos dizer que mais uma vez o julgamento de
valor está em jogo e a decisão tomada pelas autoridades (neste jogo de relações
políticas que é jogado desde a identificação de uma situação- problema até o
processo final de execução e avaliação) comprovou não considerar o seu público
beneficiário, ou será que considera? Neste caso, não acredito serem os turistas
e nem os tubarões os reais beneficiários de tais decisões.
A questão do tubarão em
Pernambuco, diante de fatos como este, parece que ainda não se tornou uma
situação-problema e nem entrou para a agenda pública do estado, afim de ser
verificar o grau de controvérsia. Mas, ao acompanhar as notícias vindas da
mídia ou da internet é fácil compreender as razões, esta situação não tem um
grau de insatisfação que mereça crédito dos atores sociais e nem das
autoridades. Todos concordam que a culpa é da jovem (que gosta de mar).
Vamos utilizar como exemplo
o “bolsa escola”, aquela política de colocar na escola quem deveria estar
dentro dela. Qual seria a relação existente entre o bolsa escola e o fato do
tubarão ??? Bem, a relação é óbvia, a
questão econômica do país.
Se as intervenções precisam
ser feitas nas causas o
argumento das autoridades acabam sempre sendo o mesmo: a culpa de tudo é da
pobreza.
Por isso, quando falam de
bandidos, marginais, violência ...falam logo da pobreza e das favelas.
Quando falam da falta da
frequência escolar ....falam da situação de pobreza das famílias .
Não seria uma redução
simplista da realidade?
Então a culpa é da jovem. Pronto!
Esta é a solução mais
econômica para a situação-problema e toda a sociedade concorda.
Se não há tanta controvérsia,
e todos os atores sociais concordam entre si, não é um problema que exija a
adoção de uma política pública.
A repercussão foi pouca, a
moça morava no Brasil mesmo e não era filha de nenhuma personalidade ou gente famosa
(autoridade, artista ou jogador de futebol) e ainda bem que não era
estrangeira. Fica tudo em casa.
Mas, digamos que haja uma
política pública. O processo de formulação de alternativas e soluções seria a
seguinte:
Partindo da mesma
justificativa utilizada no bolsa escola poderíamos fazer a seguinte análise da situação:
A jovem entrou no mar porque
a sua família era pobre e não tinha dinheiro para ir a uma praia sem tubarão.
Então as alternativas seriam:
1. Como o fato ocorreu nas férias de julho podemos
ampliar os dias letivos e acabar com as férias e recessos escolares e ainda
garantir a frequência dos alunos.
2. Deixar mais cara a passagem de avião para que os
pobres não possam viajar nas férias.
(Pois tem sempre um “engraçadinho”
que tem a coragem de revelar publicamente sua insatisfação com o fato do pobre ter
dinheiro para andar de avião e não ter para comprar caixão)
3. Para aqueles que podem pagar, o estado pode pensar em
disponibilizar a venda de um serviço de “rede de proteção contra tubarões” para
que, determinados turistas, possam tomar banho de mar na praia de Boa Viagem
com segurança total.
4.
Proibir entrar
no mar (risco de morte por ataque de
tubarão seria zero)
Esta
quarta alternativa é realmente bárbara. Vou explicar melhor:
Proibir o cidadão de entrar
no mar é mais fácil porque não tem custos para o estado é tudo uma questão de
criar uma lei. Da próxima vez que alguém entrar no mar e for atacado por um
tubarão a sociedade, a mídia e as autoridades poderão afirmar categoricamente
que a pessoa além de ter sido teimosa e imprudente também foi criminosa porque
cometeu um crime diante da justiça. E comprovado o crime, através de um
atestado de óbito confirmando que a causa da morte foi realmente por ataque de
tubarão, a família poderia assumir o pagamento de uma multa, prestar serviços comunitários,
já que quem cometeu o crime havia morrido sem arcar com as sanções previstas em
lei.
A nossa Constituição Federal
é bastante clara ao dizer que ninguém deve ser obrigado a fazer ou deixar de
fazer qualquer coisa se não for em virtude de uma lei. Sendo assim, a jovem não
cometeu crime algum, pois ainda não existe esta lei em Pernambuco de que é
proibido entrar no mar. E este fato não impediu da jovem ser julgada
publicamente e ser condenada sem direito a ampla defesa.
Lei que proíbe entrar no mar
realmente não deve existir porque tem gente fazendo do mar seu quintal, por exemplo,
na Praia do Iporanga (Guarujá- SP) onde estive pessoalmente para ver, com meus
próprios olhos, o que outros “tubarões” (de uma outra espécie) estão mordendo
por aí (o nosso patrimônio ambiental). Naquelas lindas praias que ainda não tem
tubarão de verdade. Lá, qualquer dia, também vão querer inventar uma lei que impeça
o cidadão, como nós, de não só tomar banho de mar como também de entrar na
cachoeira. É exatamente lá onde existe aquela tal placa dizendo “seja breve”.
Enfim, tudo o que falei até
agora parece um monte de bobagem. Mas, é exatamente desta forma que percebo
algumas das políticas públicas que, na minha opinião, estão sendo pensadas sem
nenhuma preocupação com o público beneficiário, que deveria ser o povo. Minha
ingenuidade pode ser tanta que eu possa estar completamente equivocada, por
exemplo, em acreditar mesmo que certas políticas estão sendo pensadas para as
crianças e jovens que estão fora da escola.
Fica um alerta para quem
ainda não entendeu que tudo o que acontece na vida é uma questão de decisão e
de escolhas. E toda decisão passa por um julgamento de valor e por riscos. Se a
jovem decidiu entrar no mar e assumiu o risco de morrer após ser atacada por um
tubarão, a sociedade deveria se perguntar quais valores esta jovem tinha. Os
nossos valores falam muito sobre o que somos e pensamos sobre o outro, sobre o
mundo e sobre nós mesmos. Garanto, os valores dela eram nobres.
O Estado de Pernambuco
também fez suas próprias escolhas, tomou decisões quando optou por intervir ou
não no problema dos tubarões nas parais litorâneas. E toda essa decisão de agir,
ou não, foi guiada por um julgamento de valor e por riscos. O risco todos vocês
viram qual foi (a morte de dezenas de seres humanos). A sociedade deveria se
perguntar qual julgamento de valor guiou o Estado no momento que escolheu alternativas
inadequadas e que desconsideravam completamente os sujeitos beneficiários. Respondo,
o valor da vida humana não foi. A
sociedade também deveria perguntar a si mesmo, diante de fatos como estes, quem
são os reais beneficiários de tais políticas de prevenção contra ataques de
tubarão nas praias litorâneas do Nordeste. Respondo: Não são os cidadãos e nem
mesmo os tubarões de verdade. Basta olhar as
causas que possibilitaram tais ataques. Quem estuda Políticas Públicas sabe
muito bem que as ações devem atuar nas causas do problema.
_ Pernambucanos, saiam já deste mar !
Realmente, ele está cheio de
tubarões !
O Mar sempre esteve cheio de tubarões, afinal é o habitat natural deles, a formação geológica de nossas praias permite a aproximação desses animais. O que ocorre é que nem sempre houve tanto desequilíbrio ambiental ao ponto de atrair os animais topo de cadeia alimentar a proximidade dos banhistas.
ResponderExcluirAo dialogarmos com a Carta Magna podemos lembrar do Artigo 225 “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida", não temos mais esse "ecologicamente equilibrado". O que faremos? Diremos: "Pessoas saiam do Mar?". "Elas sairão?" Faço trabalho voluntário em Educação Ambiental, por vezes os voluntários assim como os Bombeiros são simplesmente ignorados por quem decide, por livre arbítrio, virar o rosto e adentrar em locais inseguros para o banho, assim ocorre, isso é comum principalmente em praias como Piedade em frente à igrejinha, digamos que temos 2 educadores ambientais e uns 4 bombeiros para evitar que pelo menos 700 pessoas mergulhem, por vezes, é um trabalho de enxugar gelo. Imagine se os bombeiros tivessem ordem para dar voz de prisão a esse quantitativo de pessoas em horário de lazer? Possivelmente seriam ignorados ou linchados.
Em relação às Politicas Públicas estamos nos limitando a evitar o banho em mar aberto. Porém só existem Politicas Públicos eficazes e eficientes se pensarmos em Mitigar o Contexto que tem gerado tanto Impacto Ambiental em Nossas belas Praias.